E eu aqui sendo mãe. E eu aqui envelhecendo, perdendo conta a conta as contas do meu colar. Aos poucos os amigos.e a popularidade minguam. Aos poucos vamos ficando livres, maravilhosamente livres, mas sem disposição para voar. A vida e muito irônica.
terça-feira, 11 de fevereiro de 2014
sexta-feira, 17 de janeiro de 2014
O que tenho a dizer hoje
"Por isso o meu coração está feliz, e as minhas palavras são palavras de alegria; e eu, um ser mortal, vou descansar cheio de esperança, pois tu, Senhor, não me abandonarás no mundo dos mortos. Eu tenho te servido fielmente, e por isso não deixarás que eu apodreça na sepultura. Tu me tens ensinado os caminhos que levam à vida, e a tua presença me encherá de alegria.” (Atos 2:26-28 )
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terça-feira, 12 de novembro de 2013
Heranças
Eu era seminarista. Não sou mais. Recebi o diploma em uma noite muito linda, uma das mais lindas da minha vida. Meus olhos brilhavam de idealismo. Agora não preciso mais desse diploma. Quando cheguei aqui ninguém me perguntou por ele. Só importava a pureza do que senti naquela noite.

Fui missionária. Quando cheguei aqui ninguém me perguntou quantas pessoas consegui levar para a igreja. Só o que contava era se eu acreditava mesmo no que dizia, se me dirigia às pessoas com amor, se era com respeito que segurava cada mão que chegava a mim.
Se todos soubessem o que realmente importa... Se todos soubessem que tão pouco é necessário! E que a contabilidade do mundo não encontra nenhuma equivalência aqui! Ah como meus irmãos viveriam mais leves!
Tive uma vida difícil. Tudo foi com muita luta mas era tão importante para mim aquela noite de formatura! Como eu estava feliz quando recebi o diploma, como me emocionei, meu Deus! Meu coração parecia que ia explodir. Me senti incumbida de algo grandioso, magnífico, da missão mais
importante do mundo. Como não se comover?
É, eu era assim. Meu coração... meu coração... queria tanto que as pessoas tivessem podido ver um pouco do meu coração!
Minhas experiências do passado, guarde-as no peito como uma lembrança minha, como conselhos, sopros de cuidado sobre seu rosto. Pense em mim como mãe. Guarde um pouco dessa Alba doce, desses cabelos brancos na sua memória. Lembre do brilho dos meus olhos. Não peço isso porque eu me ache especial. Guarde-me com carinho se eu tiver sido especial para você.
Se puder, conte aos seus filhos algumas das minhas histórias. Use a minha experiência para o seu bem. Se delas você nada souber, pergunte aos que conviveram comigo. Ou não...
Todo esse pouco é só o que pude deixar. Outros bens não tive. Para meus filhos, além do meu amor e dos ternos momentos que passamos juntos, ficam minhas apostilas, livros, anotações, fotos, roupas, pares de brincos, sapatos usados, pentinhos de cabelo e vidros de remédio pela metade.
Sabia que se eu não olhar pra trás não haverá passado? Se eu não parar para pensar em como foi, é como se nada tivesse havido! É engraçado.
Folhas leves caem sobre meus ombros. Quando respiro fundo, todo o meu ser se renova.
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Debaixo dos Caracóis dos Seus Cabelos (Roberto Carlos – 1971)
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sexta-feira, 6 de setembro de 2013
Seus livros
Esses dias, mãe, joguei fora algumas das suas coisas. Eu sei que agora isso não tem mais importância mas sabe, me deu uma dor no coração! É como se tivesse sido mais uma despedida, mais uma separação, outro adeus. Quase vi sua chalana sumindo atrás das árvores, deslizando sem ruído.
Aqueles livros que a senhora tanto prezava, que me mostrava folheando e dizendo "olha Cristina, esse livro é ótimo! Tem muitas coisas interessantes, você vai gostar. Dá uma lida quando você tiver tempo, minha filha. É muito bom!"
Ai mãe...
Estava tudo lá, empoeirado. Eu sabia que não iria ler. Não porque eu não gostasse, mas porque estou meio desgostosa. Aqueles livros são para pessoas que pretendem ensinar, compartilhar conhecimento. É o tipo de informação que pede para ser transmitida só que não há há mais ninguém no mundo para eu fazer isso. Cada dia mais um pedacinho do seu mundo se perde.
Parece que não há mais mentes curiosas, inquisitivas. Tudo aquilo que lhe empolgava e dava prazer - e a mim também - as pessoas ignoram e desprezam conhecer. Não há interesse.
Então ali, sentada no quarto, eu olhava para aqueles livros - tão "a sua cara"- e me dava uma angústia, uma saudade, um sentimento de "Em Algum Lugar do Passado." Não me desfiz de todos, mas sei que um dia vou fazê-lo.
De que me adianta guardar o seu Cantor Cristão se ninguém mais valoriza aquelas canções? Aquele volume surrado me deixa triste, saudosa do tempo em que cantávamos juntas e nossos olhos se enchiam de lágrimas. Nossos olhos se encontravam na mesma esperança, na mesma fé. Sabíamos que estávamos sentindo a mesma coisa, comungando de algo elevado e caro, além desse mundo. De que adianta olhar aquilo se não tenho mais com quem compartilhar essas emoções?
Quando eu peguei "Os Evangelhos Comparados" ou "A Harmonia dos Evangelhos', só me lembrei da senhora e da sua empolgação com a compreensão daquelas coisas. Se eu pegava um estudo sobre Jerusalém ou a Palestina antiga, ah... Parecia que eu estava vendo seus olhos brilharem visualizando locais que jamais pisou, visitando virtualmente o contexto histórico e geográfico da Bíblia.
Suas músicas, seus dicionários, mapas, apostilas, livros... Mãe, eu joguei um monte de coisas fora. Me perdôa.
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quinta-feira, 26 de janeiro de 2012
Pegue minha mão, precioso Senhor!
http://www.youtube.com/watch?v=YLj5se2mxjM
Pegue Minha Mão, Precioso Senhor
Precioso Senhor, pegue minha mão
Conduza-me, deixe-me repousar
Eu estou cansado, eu estou fraco, eu estou só
Através da tempestade,
Através da noite
Conduza-me para a luz
Pegue minha mão precioso Senhor,
Conduza-me para casa
Quando meu caminho cresce sombrio
Precioso Senhor, meu fim esta perto
Quando minha luz quase desaparece
Ouça meu choro, Ouça meu chamado
Segure minha mão antes que eu caia
Pegue minha mão precioso Senhor,
Conduza-me para casa
Quando a escuridão aparece e a noite esta próxima
E o dia tornou-se passado
No rio eu espero guie meus pés,
Segure minha mão
Pegue minha mão precioso Senhor,
Leve-me para casa
Precioso Senhor, pegue minha mão
Conduza-me, deixe-me repousar
Eu estou cansado, eu estou fraco, eu estou só
Através da tempestade,
Através da noite
Conduza-me para a luz
Pegue minha mão precioso Senhor,
Leve-me para casa!
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sexta-feira, 20 de janeiro de 2012
INSCRIÇÃO PARA UM PORTÃO DE CEMITÉRIO
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sábado, 31 de dezembro de 2011
Migração
Há uma festa para onde elas estão indo, mas elas não dizem nada. Se eu pudesse segui-las chegaria a ti, mas não posso.
Sinto inveja das aves que pousarão no teu ombro e brincarão nos teus cabelos. Sinto inveja desse vôo silencioso, cheio de segredos. Sinto inveja desse caminho certeiro, dessa ausência de dúvidas que só as aves têm.
Sigo meu caminho na Terra. Cumpro a minha sina, que nem tem sido penosa. A vida é boa, embora fique aquela dor antiga incomodando o sapato. Mas é assim mesmo: todos os sapatos doem e as dores nem sempre se despedem.
Sinto saudades, mãe. A senhora sabe disso.
Um dia o meu caminho na Terra me levará ao caminho das aves. Nesse tempo darei o último passo aqui e descobrirei, finalmente, onde você respira e quais os ventos que sacodem as suas roupas brancas.
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sexta-feira, 29 de abril de 2011
Alphonsus de Guimarães
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sábado, 19 de março de 2011
O que a gente pensa com o coração, é verdade. Em algum lugar, em algum tempo desconhecido...
Oi, minha filha!
Quanto tempo que você não lê meu diário!
Eu estou bem. Pra sempre bem!
Que bom que você tem saúde e meus netinhos também. Não lamente por eu não estar aí para abraçar a Ana Clara. Isso não é grande perda, pois um dia vou conhecê-la de qualquer forma! E ela mesma me contará da sua vida, suas travessuras e descobertas. Ora, para quê a pressa então? Pressa é uma das coisas que não existem aqui.
Minha filha, acredite: por melhor que você se sinta hoje, isso é um nada perto de como você se sentirá quando chegar aqui. Cristina, é como trocar de corpo, nascer de novo, ser um bebê grande! Me sinto um bebezão, viçosa como uma flor.
Vez por outra me chegam notícias de vocês. Confesso que raramente me lembro das agruras daí. Claro que amo todos vocês com muito mais plenitude agora, só que aqui é tanta coisa! Tanta alegria dentro de mim que... é alegria demais, cores, risos, música, novidades, gente antiga, gente recém-chegada, agitação e paz, tudo, tudo junto! Não dá pra pensar muito na Terra.
Vejo que você está melhor. É assim mesmo, minha filha. Vontade de te dar um abraço... Lembre sempre que passei por coisas muito difíceis quando eu estava aí, mas nunca perdi a fé. E admita: sua vida sempre foi mais fácil do que a minha.
Sinto-me tão jovem, tão cheia de vida! Aqui eu converso muito e já aprendi coisas incríveis. Muitas descobertas, esclarecimentos e curiosidades. Aqui se confirmou aquilo que eu te disse que desconfiava sobre a eternidade: de fato a gente continua aprendendo e descobrindo mil coisas mesmo depois que "morre". Cris, o conhecimento é infinito! Aqui é tudo muito, muito estimulante. Eu queria te explicar, te contar tudo, mas você não conseguiria acompanhar.
O mais importante mesmo é saber que o que valida tudo é o amor. Sério! O amor é a única coisa real. O resto são equívocos, delírios. Mesmo o amor triste, o amor "mal sucedido", o amor sofrido. O "pior amor" é doce perto da sequidão da paz indiferente. Mas claro que você sabe isso. Todos sabem e todos dizem que o amor é tudo. Só que aqui onde estou, mergulhada em amor e em conhecimento, aqui tive evidências palpáveis e claras de todas as verdades - e essa é a maior, o resumo de tudo. Aqui eu descobri tudo o que eu já sabia, portanto é impossível ensinar a você. Porque você "já sabe", embora não saiba.
Ah, para quê tentar explicar o inexplicável? Só vim aqui hoje para te dizer uma coisa: estou contente por você ter parado de dizer que nunca te entendi. Hoje você sabe que nunca ninguém nessa vida te percebeu tão profundamente quanto eu. Fui sua melhor amiga desde sempre. Sempre quis mais proximidade mas nunca soube direito o caminho da sua alma. Eu sofria por não entender por quê você parecia distante. Hoje... Ah, hoje entendo tudo. Hoje tudo faz sentido. E hoje sei que você sabe que todos os desacertos não passaram de estágios da adolescência, do crescimento. Que bom, minha filha, que nada disso importa mais! Que bom que está tudo esclarecido e que você me sorri sem timidez. Sim, vamos rir muito quando nos encontrarmos e você vai ver que se tivéssemos nascido na mesma época eu teria sido sua melhor amiga de infância. Cris, acredite: nos teríamos nos dado muito bem! Eu teria sido inesquecível, a amiga mais amada, mais marcante e carinhosa.
Sabe, de certa forma saber disso já torna tudo verdade como se tivesse acontecido. Sim, de uma forma que não consigo explicar fomos grandes amigas de infância só porque isso teria sido possível. Amigas-gêmeas.
O que a gente pensa com o coração, é verdade. Em algum lugar, em algum tempo desconhecido. É assim, só não sei como.
Hoje você não diz mais que "minha mãe não me entende". Que engraçado lembrar dessa tolice agora! Hoje você é mãe também, é madura, cresceu. Está mais parecida comigo do que jamais imaginou ser possível. Nada há mais a explicarmos uma para a outra. Quão doce pode ser o passar do tempo para os que estão na Terra!
Quero ser a segunda pessoa a te abraçar quando você chegar. Pode ter certeza de que te recepcionarei. Talvez te leve flores ou quem sabe uma surpresinha qualquer. Estamos cada dia mais perto de nos encontrarmos! Seremos tão unidas então, tão irmãs, tão inseparáveis!
Hoje está tudo claro. Tudo brilha! A verdade brilha como o sol, um Sol poderoso e envolvente.
Eu amo você. Você me ama e vamos nos encontrar. Sim, seu pai está aqui e já conversamos muito. Ele quer muito te abraçar também. Será uma festa!
Que bom, que bom que tudo está indo bem com você. Hoje sei melhor do que nunca que cumpri com minha missão e que eu não teria podido fazer nada melhor do que fiz. O Pai não me cobrou nada, só me recebeu em afagos indescritíveis. Será assim com você, portanto tenha paz!
Entendi tudo da vida, da morte, da não-morte... Saiba: todas as nossas lacunas e faltas serão supridas pelo Amor Supremo. Nada faltará a você. Diga isso para os seus irmãos.
Minha filha querida! Sei que há guerras, terremotos, medos, mágoas, expectativas... mas o que importa? Falta tão pouco para acabar! Ele me disse! Mas eu sei que você sabe disso. Sabe, embora não saiba ainda rsrsrsrs
Ah como é bom estar VIVA!
Falta pouco para você. Estou te esperando, minha querida!
Um beijo!
Alba
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quarta-feira, 7 de julho de 2010
terça-feira, 6 de julho de 2010
Lady Alba - Roberto Carlos
Novamente uma menina
E na hora do meu desespero
Gritar por você
Te pedir que me abrace
E me leve de volta pra casa
E me conte uma história bonita
E me faça dormir
Só queria ouvir sua voz
Me dizendo sorrindo:
Aproveite o seu tempo
Você ainda é uma menina
Apesar de distância e do tempo
Eu não posso esconder
Tudo isso eu às vezes preciso escutar de você
Lady Alba, me leve pra casa
Lady Alba, me conta uma história
Lady Alba, me faça dormir
Lady Alba
Quantas vezes me sinto perdida
No meio da noite
Com problemas e angústias
Que só gente grande é que tem
Me afagando os cabelos
Você certamente diria:
"Amanhã de manhã você vai se sair muito bem"
Quando eu era criança
Podia chorar nos seus braços
E ouvir tanta coisa bonita
Na minha aflição
Nos momentos alegres
Sentado ao seu lado, eu sorria
E, nas horas difíceis
Podia apertar sua mão
Tenho às vezes vontade de ser
Novamente uma menina
Muito embora você sempre ache que eu ainda sou
Toda vez que eu te abraço e te beijo
Sem nada dizer
Você diz tudo que eu preciso
Escutar de você!
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quarta-feira, 8 de julho de 2009
Não adianta
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quarta-feira, 24 de dezembro de 2008
Pequena Vila de Belém
Eu vi você colocando o CD com aquela música "Pequena Vila de Belém"...
"Pequena vila de Belém
Repousa em teu dormir
Enquanto os astros lá no céu
Estão a refulgir
Porém nas densas trevas
Resplende a eterna luz
Incomparável, divinal :
-Nasceu o bom Jesus!"
Lembra de quantas vezes cantamos isso? rsrsrs Muitas, em muitos Natais. Acho que "infectei" vocês com o amor a essas músicas tradicionais e antigas, ao amor a esse tipo de Natal que as pessoas não conhecem mais.
Se eu estivesse aí cantaria com vocês e provavelmente lagrimaríamos do mesmo jeito. Normal. Gostávamos de nos emocionar juntos. Fazia parte. Agora isso é só com vocês.
Havia músicas e cheiros no ar, sapatos novos, vestidos que eu mesma fazia para vocÊs. Tudo com muito amor, você sabe disso. A noite estava tudo pronto e de tão pouco dinheiro saía tanta coisa bonita! Parecia tudo difícil mas foram bons tempos. Uma luta boa sim.
Se eu estivesse aí não resistiria e protestaria pela pobreza do que se tem cantado ultimamente nas igrejas. Agora são uns cânticos modernosos chatissimoss. Riríamos muito da chatice do que se vê e no final das contas seriam mais risos do que saudades e lágrimas. Sempre eram mais risos. Isso era bom. E continuaríamos contando e recordando do tempo em que vocês eram crianças e que o Natal era mais bonito.
Hoje as pessoas não sabem bem o quanto o Natal era mais bonito, para todos nós. Acho que era um segredo nosso. Morri e não consegui repassar isso direito para os outros. Pensando bem, não adiantava mesmo. Era nosso, só nosso. A Pequena Vila, O Primeiro Natal e muitos outros eram só nossos. Guardem pra vocês.
Feliz Natal.
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quarta-feira, 26 de novembro de 2008
Só umas músicas
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quinta-feira, 13 de novembro de 2008
Está tudo bem

Estou lembrando dos bolos que eu te fazia, das noites em que eu dormia tarde, no dia seguinte inteiro de pé para preparar sua festa de aniversário. Naquele tempo não era comum fazermos encomendas. As mulheres não trabalhavam fora.
Eu sabia que você ficava feliz, mas os outros não percebiam isso. Achavam você meio invocada, tímida, cismada, meio esquisita... mas você gostava sim, e como! Sentia-se uma princesa com aqueles vestidos novos que sua madrinha comprava. Morria de vergonha quanto cantavam os parabéns mas adorava a festa, os balões, os amiguinhos, os presentes, teu pai te mimando, chamando de princesa.
Mais tarde, já na velhice, questionei-me de onde será que eu tirava tanta disposição para fazer tudo aquilo: balinhas, bolo recheado, confeitado, balões pela casa, sanduichinhos...
Certa vez fiz para o Maurício um bolo em formato de violão. Um violão azul lindo.
Pra você lembro de um bolo confeitado com flores. Representava um jardim. Eu o enfeitei com uma bonequinha muito delicada, sentada em um balanço. Comprei e vesti a pequena boneca. O balanço eu fiz caprichosamente com cartolina, purpurina... Você ficou a tarde toda olhando aquela boneca e de vez em quando a fazia balançar. Não dizia nada. Mesmo ocupada eu perguntava a mim mesma "o que será que essa menina tanto pensa?"
Era sempre assim: você calada, querendo dizer que estava feliz, que estava agradecida. Queria dizer "obrigada" e outras coisas que eu via saltar de seus olhos mas as palavras nunca chegavam à boca.
Deixe de ser boba, Cristina! Quero que você saiba especialmente hoje que desde aquela época até agora, sempre esteve tudo bem entre nós duas. Nunca houve arestas a serem aparadas.
Por favor, envelheça em paz, tenha muitos aniversários. Um dia estaremos juntas novamente e será em uma festa sem fim, uma espécie de aniversário eterno, sem hora para acabar.
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sexta-feira, 17 de outubro de 2008
Inevitável
Esses dias eu fiz quatro anos de morta. Quatro anos. Não que aqui eu conte o tempo mas quando olho para o passado é possível lembrar das horas, dos dias, dos longos meses.
Estão todos consolados. Isso é bom. Sempre soube que seria assim. Saudade não acaba nunca mas a roda viva, os problemas, a correria ao mesmo tempo que cansam fazem a gente deixar de lado muitas coisas importantes. Coisas boas (uma pena) mas coisas dolorosas também. Eu sempre citava para meus filhos aquele texto bíblico que diz que "...Quanto ao homem, os seus dias são como a erva, como a flor do campo assim floresce. Passando por ela o vento, logo se vai, e o seu lugar não será mais conhecido." Inevitável.
Os dias passam e aqueles que estão debaixo do tempo lembram de mim quando as luzes se apagam e vão dormir. Lembram de mim nos natais e aniversários, nas minhas cores prediletas, nas músicas que me comoviam, em gestos familiares que deixei programados em cada filho - as marcas de que passei pela Terra, inegavelmente.
De certa forma estou sempre com eles. Apesar da distância sei que vez por outra seii que por benevolência do Programador das Mentes Humanas, eles me sentem ao seu lado velando, sorrindo, cantando um hino que fala do Céu... e assim eles se sentem confortados. Com esse recurso ando pelos quartos, pelos gramados, folheio livros, relembro-lhes receitas caseiras e citações sábias. Observo-os enquanto dormem, relembro-lhes textos bíblicos quando estão em apuros e deixo-os imaginar que ainda hoje estou orando por eles. Faço de conta que sou anjo. A mente humana se envolve candidamente com esses arranjos. Inevitável.
Ah meus medos de antigamente! Como me preocupava em ser entendida, especialmente pela Cristina! Mas o tempo arranja tudo. Por algum motivo ela sempre achou que eu não a compreendia. Nossas linguagens frequentemente se chocavam. Havia inquietude, melancolia e uma certa rebeldia contidas naquela garota magrinha. Quando ela deixava a porta do coração entreaberta eu encontrava ali tantos sonhos, tantas irrealidades adolescentes, meu Deus! Tantas flores que não ficariam de pé sob os ventos da vida! Como dizer isso a ela? Nem precisava: ela entendia a ponto de se ressentir pelas minhas descrenças. Sabíamos uma o que a outra pensava e discutíamos sem palavras. Passou, inevitavelmente.
O que seria dela anos depois? O que seria dela se criasse asas antes de criar juízo?
Hoje estou tranquila. Em minha memória tudo agora é leve e fresco como minhas roupas, como esse rio de cristal sob meus pés, como as folhas da árvore da vida. Nada me causa dano e o vento não para de soprar. Cristina finalmente descobriu que eu era quem mais a compreendia na vida. Esse era o motivo de se irritar comigo: era inquietante que eu a enxergasse tanto e que tivesse razão com tanta frequência. Vamos nos encontrar e rir de tudo aquilo. Hoje ela se flagra com pensamentos iguais aos meus, medos semelhantes e até preconceitos coincidentes. E está ficando a minha cara.
Não aconteceu o que eu temia. Ela criou juizo antes de criar asas. Ela não sabia mas era inevitável se parecer tanto comigo.
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sábado, 13 de setembro de 2008
Hoje no Grêmio
Hoje, sábado, fizemos um programa que era tão comum antigamente! Fomos ao Grêmio, reunimos família e amigos e passamos a tarde comendo churrasco, rindo, conversando, cochilando na rede.
Impossível não lembrar das vezes em que você e Maurício estavam conosco. Vocês eram o centro desses pequenos eventos familiares.
Eu até queria acreditar que vocês de alguma forma estavam lá prestigiando o momento. Talvez perto, talvez por entre as árvores, talvez só por alguns pequenos minutos. Mas não. Não existe isso. Vocês estão muito, muito longe de nós.
Hoje fiz aniversário de casamento. Você teria me abraçado e proferido bênçãos de um jeito tão carinhoso e sincero que me deixaria sem jeito.
Hoje despedimo-nos do Victor, que vai morar longe. Você teria orado por ele de um jeito mais mãe do que qualquer mãe do mundo porque sua alma sempre foi materna antes mesmo de seu corpo ter descoberto isso. E ele... Ele teria arrumado as malas mais seguro, com o coração mais acolhido.
O Grêmio é a cara de vocês, assim como o brilho verde das árvores, o ronronar da rede, a vontade de ficar mais. Pena que vocês não vieram...
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sábado, 31 de maio de 2008
Talvez o amor seja como um local de descanso,um abrigo da tempestade
Ele existe para te oferecer conforto,
Ele está lá para te manter aquecido
E naqueles tempos de dificuldade
Quando você está na maior parte sozinho,
A lembrança do amor vai te trazer para casa
Talvez o amor seja como uma janela,
Talvez uma porta aberta,
Ele te convida para chegar mais perto,
Ele quer te mostrar mais
E mesmo se você perder a si mesmo e não souber o que fazer,
A lembrança do amor vai te acompanhar
O amor para alguns é como uma nuvem,
Para alguns tão forte como o aço
Para alguns um modo de vida,para alguns um modo de sentir.
E alguns dizem que o amor está persistindo
E alguns dizem que está desistindo
E alguns dizem que o amor é tudo
E alguns dizem que não sabem...
Talvez o amor seja como o oceano,
Repleto de conflito, repleto de dor
Como uma chama quando está frio lá fora,
Um trovão quando chove.
Se eu viver eternamente
E todos os meus sonhos tornarem-se realidade,
Minhas lembranças do amor serão sobre você...
Perhaps Love
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sexta-feira, 21 de março de 2008
Sexta Feira Santa
Mãe, por algum motivo Sexta Feira Santa se parece com você.
É uma data séria e grave. Não que você fosse assim, mas porque sempre respeitou as coisas sérias e graves.
Hoje você estaria fazendo considerações sobre a morte de Cristo, sobre a proximidade do seu retorno à Terra para dar início ao esperado"fim do mundo". Então você lamentaria o cambalear errante da raça humana nesse mundo desencantado. Então lhe viria à mente e aos lábios que a que a vida é breve e que suas dores logo passariam. Nesse momento o cilco se fecharia e você voltaria novamente seus olhos para o céu, para longe daqui.
Hoje reuniríamos a família para uma lasanha mas você mencionaria uma caldeirada de peixe com pirão. Lembraria enternecida das caldeiradas que sua mãe fazia, o quanto eram mais cheirosas e gostosas que as de hoje em dia e que nunca mais provou nada igual. Então concluiria que o passado, seus gostos momentos e cores são irrecuperáveis. Isso talvez a deixasse um pouco melancólica.
Sinto saudades das canções antigas que você evocava nessa época: as músicas de ressurreição com todos os comentários tocantes ... e tudo o mais que você sempre trazia à tona para que jamais fosse esquecido.
Você me tomava pela mão e me encaminhava a coisas superiores, excelentes e sagradas. E eu me sentia especial por ser sua filha. Me sentia especial por partilhar de suas emoções e expectativas escatológicas.
Tudo em que você acreditou foi de todo o coração.
Você era intensa. Continua sendo: intensamente lembrada, intensamente amada, intensamente morta. E contraditoriamente viva... Mas de qualquer forma, longe de mim.
Cristina Faraon
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