Mãe, lá vem de novo sua data preferida.
O que lhe importa isso agora, não é?
Nâo sei... talvez importe...
Estamos nos esforçando bastante para manter a tradição de fazer de 25 de dezembro uma noite feliz, mas está duro. Será o terceiro Natal sem você. Não posso evitar: fica tudo sem graça. As músicas que amávamos se tornaram irremediavelmente tristes. Principalmente Natal Branco. Pra piorar as coisas o Maurício também não está aqui.
O Natal de vocês dois será mais animado que o nosso...
Ainda não decidimos nada sobre o cardápio, acredita? A anos atrás já teríamos nos reunidos para pensar sobre isso, para sortear o "Amigo Invisível"... Era tão divertido! Ríamos demais quando tirávamos o nosso próprio nome. As vezes tínhamos que refazer várias vezes o sorteio - sempre entre gargalhadas, piadas e tolices deliciosas.
E como não lembrar das suas preferências na hora de escolher o cardápio? A rabanada, o bolinho de bacalhau, a salada de frutas, nozes, figos secos... Maurício sempre falava em leitão. Lembra daquele ano em que ele fez uma "vaca atolada"? Lembra dos nossos amigos chegando em casa?
Puf! Acabou!
Não vou mais fazer rabanadas. Eu as fazia só por sua causa. Você comia com um prazer! Como se estivesse comendo a melhor coisa do mundo.
Era sempre assim. Você era a "Senhora Natal". Nem lhe passava pela cabeça deixar de comemorar essa data tão família. Deus o livre! Sempre que mostrávamos preguiça e pensávamos em fazer algo mais simplezinho você se adiantava e dizia "tudo bem, deixe então mais esse prato que eu faço... não se preocupem. Eu e o Maurício, a gente faz, né?" E ele topava.
Não enfeitei minha casa. Nem vou enfeitar.
O que você gostaria de ganhar de Natal? Nas últimas vezes que lhe perguntamos você sempre ficava indecisa e, por fim, dizia que não precisava de nada. A gente comprava assim mesmo.
Quando os meninos eram pequenos você comprava presentinhos para eles, para todos nós. Eu sentia tanto carinho nisso!
Seria tão bom se você e Maurício voltassem só para passar o Natal com a gente! Visitinha rápida! Não iríamos prender você. A gente entende que não poderiam ficar muito tempo. Não pediríamos explicações, não contaríamos a ninguém, não chamaríamos os amigos. Seria o nosso segredo. Fecharíamos as portas e cortinas e cantaríamos Noite Feliz bem baixinho pra não chamar a atenção de ninguém. Desligaríamos o telefone.
Acabaria quando vocês se fossem. De novo. Pra sempre.
Cristina Faraon
quinta-feira, 13 de dezembro de 2007
Visitinha
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quarta-feira, 29 de agosto de 2007
Dom Ramon Angel Jara
Pela constância de sua dedicação,
Que sendo moça, pensa como uma anciã...
Sendo velha, age com todas as forças da juventude...
Quando ignorante, melhor que qualquer sábio
E, quando sábia, assume a simplicidade das crianças...
Pobre, sabe enriquecer-se com afelicidade dos que ama...
Rica, empobrece-se para que seu coração não sangre ferido pelos ingratos...
Fraca, entretanto, se alteia com a bravura dos leões...
Viva, não lhe sabemos dar valor, porque à sua sombra todas as dores se apagam...
Morta, tudo o que somos e tudo o que temos, daríamos para vê-lade novo
Não exijam de mim que diga o nome dessa mulher, se não quiserem que ensope de lágrimas essa mensagem, porque eu a vi passar em meu caminho...
Eles vos cobrirão de beijos a fronte e vos dirão que um pobre viajante, em troca de suntuosa hospedagem recebida, aqui deixou para todos o retrato de sua própria MÃE...
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quarta-feira, 18 de julho de 2007
No final, as letrinhas
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terça-feira, 17 de julho de 2007
Primeira Parte
Nem importa mencionar em qual ano nasci.
É estranho olhar minha própria história como sendo toda localizada no passado - nada no presente.
Minha história acabou. Nem sei se fui boa ou má, feliz ou infeliz, bela ou feia. Existi e amei. Deixei amigos, sonhos realizados e irrealizados. Contagiei pessoas com meus sonhos mais bonitos. Não sei com certeza se consegui mudar alguma coisa no mundo. Talvez sim.
Meu pai me amava e eu amava meu pai. Filha única em meio a tantos rapazes. Sentia-me só frequentemente. Minha mãe trabalhava muito, noite e dia. Era uma boa mãe, mas limitada. Estudo pouco, tristezas muitas. Mesmo amada era uma mulher só e poucas vezes compartilhava conosco as coisas de seu coração. Acho que me amava. Internou-me em colégio de freiras para que eu fosse mais fina e bem aceita em sociedade do que ela. Talvez não soubesse bem o que fazer comigo. As pessoas sempre acham mais fácil cuidar de meninos.
Naquele colégio havia hora para tudo. Naquele tempo aprendíamos a bordar, tocar, costurar... Eu tocava piano mas minha família, exceto meu pai, não valorizava muito isso. Durante anos contei a meus filhos como eram os recitais, como eu mesma fazia meu vestido especial para as apresentações, como eram bonitos aqueles momentos ainda que minha família não os valorizasse.
Conquistei muitas amizades durante a vida. Depois de moça fui a muitas festas. Eu adorava dançar, conversar, rir. Foram bons tempos, tempos românticos e ingênuos, pelo menos em minhas lembranças. Lembro-me das vezes que ainda moça eu confeccionava os vestidos de festa de minhas amigas mais pobres. Décadas depois, já envelhecida, lagrimei muitas vezes quando lembrava dessa época. Parecia não haver grandes problemas. Existiam dores e mágoas mas tudo me parecia tão mais leve do que a vida das décadas seguintes! Eu amava as orquestras, os vestidos trabalhados, os namoros na porta, chapéus, luvas, boca vermelha. Eu adorava também dançar.
Fui feliz em minha juventude, vaidosa, cercada de amigos. Acho que eu tinha um grande coração.
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segunda-feira, 9 de julho de 2007
Últimos dias
Da última vez que te vi eras mais filha do que mãe. Estavas deitada, impotente e frágil. Rapidamente olhei teus pés e lembrei deles ainda vigorosos, mergulhados em espumas brancas quando lavavas nossa cozinha.
Acho que o objetivo de nenhuma vida pode ser descoberto. Menos ainda da tua. Esse é um segredo de Deus, guardado dentro da Arca, junto com o maná e a vara de Arão.
Não lembro de ter perguntado se eras feliz. Acho que não. Penso que poucas vezes a felicidade pousou sobre tua cabeça mas jamais admitirias isso.
Mas não seria assim com todos nós?
Mas mais do que tudo, decifrar o sentido de teus últimos dias tem sido o maior dos desafios.
Há meses que esse quebra-cabeça jaz sobre a mesa das minhas reflexões, empoeirado. Olho confusa, levanto e não me animo a mexer em nenhuma peça. Não adianta.
Teus últimos dias não precisavam ter acontecido. Poderias ter morrido sem eles.
Houve alguma purificação? Um arrependimento final? Uma verdade revelada?
Poderias ter vivido sem eles...
Viraste criança, floco de neve, coisa leve que se perde. Foste restos de ti mesma, um suspiro dolorido.
Depois de teus últimos dias passei a me preparar para meus dias últimos. Sempre acho que vou me transformar em você. Olho no espelho e, parece-me, a metamorfose já começou.
Tenho pensado demais no final de todas as coisas e no prosseguir indiferente da humanidade.
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Cristina Faraon
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Uma pausa
Esse lugar é um achado!
São 15:20 e estou ouvindo um piano celestial.
As músicas tocadas são do tempo de minha mãe.
Lá fora é dia mas aqui dentro é noite. Noite entrada em horas...
Pessoas antigas olham-me a partir das janelas de suas fotografias.
A música tocando fala tudo sobre como foi enquanto estavam vivas.
A música é veemente e apaixonada.
Veementemente apaixonada.
Nas ondas dessas músicas vejo um glamour esplêndido acenando daquela época.
Tudo ilusão, certamente. Mas é quase irresistível acreditar.
Essas impressões tem a ver com projeções das saudades que minha mãe sentia - projeções das emoções dela sobre minha mente.
Talvez nada fosse melhor.
Talvez fosse, mas eles morreram sem saber disso.
Dá vontade de chorar. Estou emotiva hoje, aqui, agora.
Queria visitar esse mundo passado com um vestido azul, leve e com sapatos bordados. Então eu conheceria aquele que poderia ter sido o grande amor da minha vida. Hoje ele certamente está morto.
Vou beber a isso. E chorar.
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Cristina Faraon
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