sábado, 31 de dezembro de 2011

Migração

Olho para o céu e, parece-me: todas as aves voam para ti.

Há uma festa para onde elas estão indo, mas elas não dizem nada. Se eu pudesse segui-las chegaria a ti, mas não posso.

Sinto inveja das aves que pousarão no teu ombro e brincarão nos teus cabelos. Sinto inveja desse vôo silencioso, cheio de segredos. Sinto inveja desse caminho certeiro, dessa ausência de dúvidas que só as aves têm.

Sigo meu caminho na Terra. Cumpro a minha sina, que nem tem sido penosa. A vida é boa, embora fique aquela dor antiga incomodando o sapato. Mas é assim mesmo: todos os sapatos doem e as dores nem sempre se despedem.

Sinto saudades, mãe. A senhora sabe disso.

Um dia o meu caminho na Terra me levará ao caminho das aves. Nesse tempo darei o último passo aqui e descobrirei, finalmente, onde você respira e quais os ventos que sacodem as suas roupas brancas.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Alphonsus de Guimarães



Hão de chorar por ela os cinamomos,
Murchando as flores ao tombar do dia.
Dos laranjais hão de cair os pomos,
Lembrando-se daquela que os colhia.

As estrelas dirão: – “Ai! nada somos,
Pois ela se morreu, silente e fria... ”
E pondo os olhos nela como pomos,
Hão de chorar a irmã que lhes sorria.

A lua, que lhe foi mãe carinhosa,
Que a viu nascer e amar, há de envolvê-la
Entre lírios e pétalas de rosa.

Os meus sonhos de amor serão defuntos...
E os arcanjos dirão no azul ao vê-la,
Pensando em mim: – “Por que não vieram juntos?”

sábado, 19 de março de 2011

O que a gente pensa com o coração, é verdade. Em algum lugar, em algum tempo desconhecido...

Oi, minha filha!
Quanto tempo que você não lê meu diário!

Eu estou bem. Pra sempre bem!

Que bom que você tem saúde e meus netinhos também. Não lamente por eu não estar aí para abraçar a Ana Clara. Isso não é grande perda, pois um dia vou conhecê-la de qualquer forma! E ela mesma me contará da sua vida, suas travessuras e descobertas. Ora, para quê a pressa então? Pressa é uma das coisas que não existem aqui.

Minha filha, acredite: por melhor que você se sinta hoje, isso é um nada perto de como você se sentirá quando chegar aqui.   Cristina, é como trocar de corpo, nascer de novo, ser um bebê grande! Me sinto um bebezão,  viçosa como uma flor.

Vez por outra me chegam notícias de vocês.  Confesso que raramente me lembro das agruras daí. Claro que amo todos vocês com muito mais plenitude agora, só que aqui é tanta coisa! Tanta alegria dentro de mim que... é alegria demais, cores, risos, música, novidades, gente antiga, gente recém-chegada, agitação e paz, tudo, tudo junto! Não dá pra pensar muito na Terra.

Vejo que você está melhor. É assim mesmo, minha filha. Vontade de te dar um abraço...  Lembre sempre que passei por coisas muito difíceis quando eu estava aí, mas nunca perdi a fé. E admita: sua vida sempre foi mais fácil do que a minha.

Sinto-me tão jovem, tão cheia de vida! Aqui eu converso muito e já aprendi coisas incríveis.  Muitas descobertas, esclarecimentos e curiosidades. Aqui se confirmou aquilo que eu te disse que desconfiava sobre a eternidade:   de fato a gente continua aprendendo e descobrindo mil coisas mesmo depois que "morre".  Cris, o conhecimento é infinito! Aqui é tudo muito, muito estimulante. Eu queria te explicar, te contar tudo, mas você não conseguiria acompanhar.

O mais importante mesmo é saber que o que valida tudo é o amor. Sério! O amor é a única coisa real. O resto são equívocos, delírios. Mesmo o amor triste, o amor "mal sucedido", o amor sofrido. O "pior amor" é doce perto da sequidão da paz indiferente.  Mas claro que você sabe isso. Todos sabem e todos dizem que o amor é tudo. Só que aqui onde estou, mergulhada em amor e em conhecimento, aqui tive evidências palpáveis e claras de todas as verdades - e essa é a maior, o resumo de tudo. Aqui eu descobri tudo o que eu já sabia, portanto é impossível ensinar a você. Porque você "já sabe", embora não saiba.

Ah, para quê tentar explicar o inexplicável? Só vim aqui hoje para te dizer uma coisa: estou contente por você ter parado de dizer que nunca te entendi. Hoje você sabe que nunca ninguém nessa vida te percebeu tão profundamente quanto eu. Fui sua melhor amiga desde sempre. Sempre quis mais proximidade mas nunca soube direito o caminho da sua alma. Eu sofria por não entender por quê você parecia distante. Hoje... Ah, hoje entendo tudo. Hoje tudo faz sentido. E hoje sei que você sabe que todos os desacertos não passaram de estágios da adolescência, do crescimento. Que bom, minha filha, que nada disso importa mais! Que bom que está tudo esclarecido e que você me sorri sem timidez. Sim, vamos rir muito quando nos encontrarmos e você vai ver que se tivéssemos nascido na mesma época eu teria sido sua melhor amiga de infância. Cris, acredite: nos teríamos nos dado muito bem! Eu teria sido inesquecível, a amiga mais amada, mais marcante e carinhosa.

Sabe, de certa forma saber disso já torna tudo verdade como se tivesse acontecido. Sim, de uma forma que não consigo explicar fomos grandes amigas de infância só porque isso teria sido possível. Amigas-gêmeas.

O que a gente pensa com o coração, é verdade. Em algum lugar, em algum tempo desconhecido. É assim, só não sei como.

Hoje você não diz mais que "minha mãe não me entende".   Que engraçado lembrar dessa tolice agora! Hoje você é mãe também, é madura, cresceu. Está mais parecida comigo do que jamais imaginou ser possível. Nada há mais a explicarmos uma para a outra. Quão doce pode ser o passar do tempo para os que estão na Terra!

Quero ser a segunda pessoa a te abraçar quando você chegar. Pode ter certeza de que te recepcionarei. Talvez te leve flores ou quem sabe uma surpresinha qualquer. Estamos cada dia mais perto de nos encontrarmos! Seremos tão unidas então, tão irmãs, tão inseparáveis!

Hoje está tudo claro. Tudo brilha! A verdade brilha como o sol, um Sol poderoso e envolvente.

Eu amo você. Você me ama e vamos nos encontrar. Sim, seu pai está aqui e já conversamos muito. Ele quer muito te abraçar também. Será uma festa!

Que bom, que bom que tudo está indo bem com você.  Hoje sei melhor do que nunca que cumpri com minha missão e que eu não teria podido fazer nada melhor do que fiz. O Pai não me cobrou nada, só me recebeu em afagos indescritíveis. Será assim com você, portanto tenha paz!

Entendi tudo da vida, da morte, da não-morte...   Saiba: todas as nossas lacunas e faltas serão supridas pelo Amor Supremo. Nada faltará a você. Diga isso para os seus irmãos.

Minha filha querida! Sei que há guerras, terremotos, medos, mágoas, expectativas... mas o que importa? Falta tão pouco para acabar!  Ele me disse! Mas eu sei que você sabe disso. Sabe, embora não saiba ainda rsrsrsrs

Ah como é bom estar VIVA!

Falta pouco para você. Estou te esperando, minha querida!

Um beijo!

Alba

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Perdas necessárias - Pe. Fábio de Melo

terça-feira, 6 de julho de 2010

Lady Alba - Roberto Carlos

Composição: Roberto Carlos/Erasmo Carlos
 
Tenho às vezes vontade de ser
Novamente uma  menina

E na hora do meu desespero
Gritar por você
Te pedir que me abrace
E me leve de volta pra casa
E me conte uma história bonita
E me faça dormir


Só queria ouvir sua voz
Me dizendo sorrindo:
Aproveite o seu tempo
Você ainda é uma menina

Apesar de distância e do tempo
Eu não posso esconder
Tudo isso eu às vezes preciso escutar de você


Lady Alba, me leve pra casa
Lady Alba, me conta uma história
Lady Alba, me faça dormir
Lady Alba



Quantas vezes me sinto perdida
No meio da noite
Com problemas e angústias
Que só gente grande é que tem
Me afagando os cabelos
Você certamente diria:
"Amanhã de manhã você vai se sair muito bem"


Quando eu era criança
Podia chorar nos seus braços
E ouvir tanta coisa bonita
Na minha aflição
Nos momentos alegres
Sentado ao seu lado, eu sorria
E, nas horas difíceis
Podia apertar sua mão


Tenho às vezes vontade de ser 
Novamente uma menina
Muito embora você sempre ache que eu ainda sou
Toda vez que eu te abraço e te beijo
Sem nada dizer
Você diz tudo que eu preciso
Escutar de você!

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Não adianta


Não posso lhe dizer quanto falta. Nem é tanto tempo assim.

Sei que você sente e a minha falta, muito mais agora. Muito mais agora... Mas sei também que se eu estivesse aí você não diria o quanto estaria precisando de mim. Você é engraçada... mas vejo que já cresceu um pouquinho. É verdade que não diria, mas se chegaria mansamente como quem pede carinho.

Hoje você chegaria mansamente, traria uma flor ou um bolo, um presente qualquer, e eu entenderia o tamanho da sua pequenez e faria algo em relação a essa dor, essa febre, essas tempestades que vão e vêm. Eu entenderia tudo e talvez até passasse as mãos nos seus cabelos se você ficasse quietinha. Mas é certo que nada faria com que eu voltasse ao passado e tornasse a ser a mulher vigorosa que fui... e era dela que você precisava agora.
Antes de nos despedirmos eu já não era mais a mãe que você precisava que eu fosse hoje. Você não tem saudade de quem eu estava sendo; sente saudade, imensa saudade, de quem eu era há muito tempo atrás. Eu era toda vida e boa vontade. Eu transbordava como uma fonte, eu era mãe antes mesmo de sê-lo e o fui plenamente por todo o tempo que os aninhei.

Sabe, eu também sentia a mesma saudade de mim, como se fora de outra pessoa. Quando parti, parti de mim mesma.

Você não tem mais mãe, nem na terra nem no céu. Quando você chegar seremos irmãs. Talvez duas estrelas gêmeas. Será surpresa - não posso dizer mais nada!

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Pequena Vila de Belém

Eu vi você colocando o CD com aquela música "Pequena Vila de Belém"...

"Pequena vila de Belém
Repousa em teu dormir
Enquanto os astros lá no céu
Estão a refulgir
Porém nas densas trevas
Resplende a eterna luz
Incomparável, divinal :
-Nasceu o bom Jesus!"

Lembra de quantas vezes cantamos isso? rsrsrs Muitas, em muitos Natais. Acho que "infectei" vocês com o amor a essas músicas tradicionais e antigas, ao amor a esse tipo de Natal que as pessoas não conhecem mais.

Se eu estivesse aí cantaria com vocês e provavelmente lagrimaríamos do mesmo jeito. Normal. Gostávamos de nos emocionar juntos. Fazia parte. Agora isso é só com vocês.

Havia músicas e cheiros no ar, sapatos novos, vestidos que eu mesma fazia para vocÊs. Tudo com muito amor, você sabe disso. A noite estava tudo pronto e de tão pouco dinheiro saía tanta coisa bonita! Parecia tudo difícil mas foram bons tempos. Uma luta boa sim.

Se eu estivesse aí não resistiria e protestaria pela pobreza do que se tem cantado ultimamente nas igrejas. Agora são uns cânticos modernosos chatissimoss. Riríamos muito da chatice do que se vê e no final das contas seriam mais risos do que saudades e lágrimas. Sempre eram mais risos. Isso era bom. E continuaríamos contando e recordando do tempo em que vocês eram crianças e que o Natal era mais bonito.

Hoje as pessoas não sabem bem o quanto o Natal era mais bonito, para todos nós. Acho que era um segredo nosso. Morri e não consegui repassar isso direito para os outros. Pensando bem, não adiantava mesmo. Era nosso, só nosso. A Pequena Vila, O Primeiro Natal e muitos outros eram só nossos. Guardem pra vocês.

Feliz Natal.



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quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Só umas músicas


Estas são algumas das músicas que eu amava ouvir. Depois mostro mais para vocês.

Música 01
Música 02
Música 03

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Está tudo bem



Estou lembrando dos bolos que eu te fazia, das noites em que eu dormia tarde, no dia seguinte inteiro de pé para preparar sua festa de aniversário. Naquele tempo não era comum fazermos encomendas. As mulheres não trabalhavam fora.

Eu sabia que você ficava feliz, mas os outros não percebiam isso. Achavam você meio invocada, tímida, cismada, meio esquisita... mas você gostava sim, e como! Sentia-se uma princesa com aqueles vestidos novos que sua madrinha comprava. Morria de vergonha quanto cantavam os parabéns mas adorava a festa, os balões, os amiguinhos, os presentes, teu pai te mimando, chamando de princesa.

Mais tarde, já na velhice, questionei-me de onde será que eu tirava tanta disposição para fazer tudo aquilo: balinhas, bolo recheado, confeitado, balões pela casa, sanduichinhos...

Certa vez fiz para o Maurício um bolo em formato de violão. Um violão azul lindo.

Pra você lembro de um bolo confeitado com flores. Representava um jardim. Eu o enfeitei com uma bonequinha muito delicada, sentada em um balanço. Comprei e vesti a pequena boneca. O balanço eu fiz caprichosamente com cartolina, purpurina... Você ficou a tarde toda olhando aquela boneca e de vez em quando a fazia balançar. Não dizia nada. Mesmo ocupada eu perguntava a mim mesma "o que será que essa menina tanto pensa?"

Era sempre assim: você calada, querendo dizer que estava feliz, que estava agradecida. Queria dizer "obrigada" e outras coisas que eu via saltar de seus olhos mas as palavras nunca chegavam à boca.

Deixe de ser boba, Cristina! Quero que você saiba especialmente hoje que desde aquela época até agora, sempre esteve tudo bem entre nós duas. Nunca houve arestas a serem aparadas.

Por favor, envelheça em paz, tenha muitos aniversários. Um dia estaremos juntas novamente e será em uma festa sem fim, uma espécie de aniversário eterno, sem hora para acabar.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Inevitável

Esses dias eu fiz quatro anos de morta. Quatro anos. Não que aqui eu conte o tempo mas quando olho para o passado é possível lembrar das horas, dos dias, dos longos meses.

Estão todos consolados. Isso é bom. Sempre soube que seria assim. Saudade não acaba nunca mas a roda viva, os problemas, a correria ao mesmo tempo que cansam fazem a gente deixar de lado muitas coisas importantes. Coisas boas (uma pena) mas coisas dolorosas também. Eu sempre citava para meus filhos aquele texto bíblico que diz que "...Quanto ao homem, os seus dias são como a erva, como a flor do campo assim floresce. Passando por ela o vento, logo se vai, e o seu lugar não será mais conhecido." Inevitável.

Os dias passam e aqueles que estão debaixo do tempo lembram de mim quando as luzes se apagam e vão dormir. Lembram de mim nos natais e aniversários, nas minhas cores prediletas, nas músicas que me comoviam, em gestos familiares que deixei programados em cada filho - as marcas de que passei pela Terra, inegavelmente.

De certa forma estou sempre com eles. Apesar da distância sei que vez por outra seii que por benevolência do Programador das Mentes Humanas, eles me sentem ao seu lado velando, sorrindo, cantando um hino que fala do Céu... e assim eles se sentem confortados. Com esse recurso ando pelos quartos, pelos gramados, folheio livros, relembro-lhes receitas caseiras e citações sábias. Observo-os enquanto dormem, relembro-lhes textos bíblicos quando estão em apuros e deixo-os imaginar que ainda hoje estou orando por eles. Faço de conta que sou anjo. A mente humana se envolve candidamente com esses arranjos. Inevitável.

Ah meus medos de antigamente! Como me preocupava em ser entendida, especialmente pela Cristina! Mas o tempo arranja tudo. Por algum motivo ela sempre achou que eu não a compreendia. Nossas linguagens frequentemente se chocavam. Havia inquietude, melancolia e uma certa rebeldia contidas naquela garota magrinha. Quando ela deixava a porta do coração entreaberta eu encontrava ali tantos sonhos, tantas irrealidades adolescentes, meu Deus! Tantas flores que não ficariam de pé sob os ventos da vida! Como dizer isso a ela? Nem precisava: ela entendia a ponto de se ressentir pelas minhas descrenças. Sabíamos uma o que a outra pensava e discutíamos sem palavras. Passou, inevitavelmente.

O que seria dela anos depois? O que seria dela se criasse asas antes de criar juízo?

Hoje estou tranquila. Em minha memória tudo agora é leve e fresco como minhas roupas, como esse rio de cristal sob meus pés, como as folhas da árvore da vida. Nada me causa dano e o vento não para de soprar. Cristina finalmente descobriu que eu era quem mais a compreendia na vida. Esse era o motivo de se irritar comigo: era inquietante que eu a enxergasse tanto e que tivesse razão com tanta frequência. Vamos nos encontrar e rir de tudo aquilo. Hoje ela se flagra com pensamentos iguais aos meus, medos semelhantes e até preconceitos coincidentes. E está ficando a minha cara.

Não aconteceu o que eu temia. Ela criou juizo antes de criar asas. Ela não sabia mas era inevitável se parecer tanto comigo.

sábado, 13 de setembro de 2008

Hoje no Grêmio

Hoje, sábado, fizemos um programa que era tão comum antigamente! Fomos ao Grêmio, reunimos família e amigos e passamos a tarde comendo churrasco, rindo, conversando, cochilando na rede.

Impossível não lembrar das vezes em que você e Maurício estavam conosco. Vocês eram o centro desses pequenos eventos familiares.

Eu até queria acreditar que vocês de alguma forma estavam lá prestigiando o momento. Talvez perto, talvez por entre as árvores, talvez só por alguns pequenos minutos. Mas não. Não existe isso. Vocês estão muito, muito longe de nós.

Hoje fiz aniversário de casamento. Você teria me abraçado e proferido bênçãos de um jeito tão carinhoso e sincero que me deixaria sem jeito.

Hoje despedimo-nos do Victor, que vai morar longe. Você teria orado por ele de um jeito mais mãe do que qualquer mãe do mundo porque sua alma sempre foi materna antes mesmo de seu corpo ter descoberto isso. E ele... Ele teria arrumado as malas mais seguro, com o coração mais acolhido.

O Grêmio é a cara de vocês, assim como o brilho verde das árvores, o ronronar da rede, a vontade de ficar mais. Pena que vocês não vieram...

sábado, 31 de maio de 2008

Talvez o amor seja como um local de descanso,um abrigo da tempestade
Ele existe para te oferecer conforto,
Ele está lá para te manter aquecido
E naqueles tempos de dificuldade
Quando você está na maior parte sozinho,
A lembrança do amor vai te trazer para casa

Talvez o amor seja como uma janela,
Talvez uma porta aberta,
Ele te convida para chegar mais perto,
Ele quer te mostrar mais
E mesmo se você perder a si mesmo e não souber o que fazer,
A lembrança do amor vai te acompanhar

O amor para alguns é como uma nuvem,
Para alguns tão forte como o aço
Para alguns um modo de vida,para alguns um modo de sentir.
E alguns dizem que o amor está persistindo
E alguns dizem que está desistindo
E alguns dizem que o amor é tudo
E alguns dizem que não sabem...

Talvez o amor seja como o oceano,
Repleto de conflito, repleto de dor
Como uma chama quando está frio lá fora,
Um trovão quando chove.

Se eu viver eternamente
E todos os meus sonhos tornarem-se realidade,
Minhas lembranças do amor serão sobre você...

Perhaps Love

sexta-feira, 21 de março de 2008

Sexta Feira Santa

Mãe, por algum motivo Sexta Feira Santa se parece com você.
É uma data séria e grave. Não que você fosse assim, mas porque sempre respeitou as coisas sérias e graves.

Hoje você estaria fazendo considerações sobre a morte de Cristo, sobre a proximidade do seu retorno à Terra para dar início ao esperado"fim do mundo". Então você lamentaria o cambalear errante da raça humana nesse mundo desencantado. Então lhe viria à mente e aos lábios que a que a vida é breve e que suas dores logo passariam. Nesse momento o cilco se fecharia e você voltaria novamente seus olhos para o céu, para longe daqui.

Hoje reuniríamos a família para uma lasanha mas você mencionaria uma caldeirada de peixe com pirão. Lembraria enternecida das caldeiradas que sua mãe fazia, o quanto eram mais cheirosas e gostosas que as de hoje em dia e que nunca mais provou nada igual. Então concluiria que o passado, seus gostos momentos e cores são irrecuperáveis. Isso talvez a deixasse um pouco melancólica.

Sinto saudades das canções antigas que você evocava nessa época: as músicas de ressurreição com todos os comentários tocantes ... e tudo o mais que você sempre trazia à tona para que jamais fosse esquecido.

Você me tomava pela mão e me encaminhava a coisas superiores, excelentes e sagradas. E eu me sentia especial por ser sua filha. Me sentia especial por partilhar de suas emoções e expectativas escatológicas.

Tudo em que você acreditou foi de todo o coração.

Você era intensa. Continua sendo: intensamente lembrada, intensamente amada, intensamente morta. E contraditoriamente viva... Mas de qualquer forma, longe de mim.

Cristina Faraon

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

Visitinha

Mãe, lá vem de novo sua data preferida.

O que lhe importa isso agora, não é?

Nâo sei... talvez importe...


Estamos nos esforçando bastante para manter a tradição de fazer de 25 de dezembro uma noite feliz, mas está duro. Será o terceiro Natal sem você. Não posso evitar: fica tudo sem graça. As músicas que amávamos se tornaram irremediavelmente tristes. Principalmente Natal Branco. Pra piorar as coisas o Maurício também não está aqui.

O Natal de vocês dois será mais animado que o nosso...


Ainda não decidimos nada sobre o cardápio, acredita? A anos atrás já teríamos nos reunidos para pensar sobre isso, para sortear o "Amigo Invisível"... Era tão divertido! Ríamos demais quando tirávamos o nosso próprio nome. As vezes tínhamos que refazer várias vezes o sorteio - sempre entre gargalhadas, piadas e tolices deliciosas.

E como não lembrar das suas preferências na hora de escolher o cardápio? A rabanada, o bolinho de bacalhau, a salada de frutas, nozes, figos secos... Maurício sempre falava em leitão. Lembra daquele ano em que ele fez uma "vaca atolada"? Lembra dos nossos amigos chegando em casa?

Puf! Acabou!


Não vou mais fazer rabanadas. Eu as fazia só por sua causa. Você comia com um prazer! Como se estivesse comendo a melhor coisa do mundo.


Era sempre assim. Você era a "Senhora Natal". Nem lhe passava pela cabeça deixar de comemorar essa data tão família. Deus o livre! Sempre que mostrávamos preguiça e pensávamos em fazer algo mais simplezinho você se adiantava e dizia "tudo bem, deixe então mais esse prato que eu faço... não se preocupem. Eu e o Maurício, a gente faz, né?" E ele topava.

Não enfeitei minha casa. Nem vou enfeitar.

O que você gostaria de ganhar de Natal? Nas últimas vezes que lhe perguntamos você sempre ficava indecisa e, por fim, dizia que não precisava de nada. A gente comprava assim mesmo.

Quando os meninos eram pequenos você comprava presentinhos para eles, para todos nós. Eu sentia tanto carinho nisso!

Seria tão bom se você e Maurício voltassem só para passar o Natal com a gente! Visitinha rápida! Não iríamos prender você. A gente entende que não poderiam ficar muito tempo. Não pediríamos explicações, não contaríamos a ninguém, não chamaríamos os amigos. Seria o nosso segredo. Fecharíamos as portas e cortinas e cantaríamos Noite Feliz bem baixinho pra não chamar a atenção de ninguém. Desligaríamos o telefone.

Acabaria quando vocês se fossem. De novo. Pra sempre.

Cristina Faraon

quarta-feira, 29 de agosto de 2007

Dom Ramon Angel Jara


Uma simples mulher existe que, pela imensidão de seu amor, tem um pouco de Deus...
Pela constância de sua dedicação,
tem muito de anjo...
Que sendo moça, pensa como uma anciã...
Sendo velha, age com todas as forças da juventude...

Quando ignorante, melhor que qualquer sábio
desvenda os segredos da vida...
E, quando sábia, assume a simplicidade das crianças...

Pobre, sabe enriquecer-se com afelicidade dos que ama...
Rica, empobrece-se para que seu coração não sangre ferido pelos ingratos...

Forte, estremece ao choro de uma criancinha...
Fraca, entretanto, se alteia com a bravura dos leões...
Viva, não lhe sabemos dar valor, porque à sua sombra todas as dores se apagam...
Morta, tudo o que somos e tudo o que temos, daríamos para vê-lade novo
E dela receber um aperto de seus braços, uma palavrade seus lábios...

Não exijam de mim que diga o nome dessa mulher, se não quiserem que ensope de lágrimas essa mensagem, porque eu a vi passar em meu caminho...

Quando crescerem vossos filhos, leiam para eles esta página...
Eles vos cobrirão de beijos a fronte e vos dirão que um pobre viajante, em troca de suntuosa hospedagem recebida, aqui deixou para todos o retrato de sua própria MÃE...

quarta-feira, 18 de julho de 2007

No final, as letrinhas


Foi terrível aquela espera. Coisa difícil receber em casa a mala inchada, suja de barro. As roupas estavam arrumadas, dobradas e úmidas. A Bíblia estava lá, um pouco empenada. Conservei-a comigo até que, finalmente, também parti desse mundo.


Mas esse não foi o pior momento. Antes disso houve o reconhecimento dos corpos. Vi coisas feias, pessoas deformadas, inchadas... Muitas delas. Nojento, inesquecível, tétrico.


O corpo jamais foi encontrado.

Foi então um "fim-sem-fim". Sabe esses filmes franceses? Esses que a gente demora a entender que acabou? Pois é. Acabam de repente, sem mais nem menos e a gente leva um tempo para entender que não vai haver mais nada mesmo. Enquanto não aparecem os créditos, as letrinhas burocráticas, a gente não se convence.


Tudo acaba em letras, burocracia, documentos. É na hora da formalidade que passamos a imaginar como será daquele momento em diante.


Foi assim comigo.

terça-feira, 17 de julho de 2007

Primeira Parte

Nem importa mencionar em qual ano nasci.

É estranho olhar minha própria história como sendo toda localizada no passado - nada no presente.

Minha história acabou. Nem sei se fui boa ou má, feliz ou infeliz, bela ou feia. Existi e amei. Deixei amigos, sonhos realizados e irrealizados. Contagiei pessoas com meus sonhos mais bonitos. Não sei com certeza se consegui mudar alguma coisa no mundo. Talvez sim.

Meu pai me amava e eu amava meu pai. Filha única em meio a tantos rapazes. Sentia-me só frequentemente. Minha mãe trabalhava muito, noite e dia. Era uma boa mãe, mas limitada. Estudo pouco, tristezas muitas. Mesmo amada era uma mulher só e poucas vezes compartilhava conosco as coisas de seu coração. Acho que me amava. Internou-me em colégio de freiras para que eu fosse mais fina e bem aceita em sociedade do que ela. Talvez não soubesse bem o que fazer comigo. As pessoas sempre acham mais fácil cuidar de meninos.

Naquele colégio havia hora para tudo. Naquele tempo aprendíamos a bordar, tocar, costurar... Eu tocava piano mas minha família, exceto meu pai, não valorizava muito isso. Durante anos contei a meus filhos como eram os recitais, como eu mesma fazia meu vestido especial para as apresentações, como eram bonitos aqueles momentos ainda que minha família não os valorizasse.

Conquistei muitas amizades durante a vida. Depois de moça fui a muitas festas. Eu adorava dançar, conversar, rir. Foram bons tempos, tempos românticos e ingênuos, pelo menos em minhas lembranças. Lembro-me das vezes que ainda moça eu confeccionava os vestidos de festa de minhas amigas mais pobres. Décadas depois, já envelhecida, lagrimei muitas vezes quando lembrava dessa época. Parecia não haver grandes problemas. Existiam dores e mágoas mas tudo me parecia tão mais leve do que a vida das décadas seguintes! Eu amava as orquestras, os vestidos trabalhados, os namoros na porta, chapéus, luvas, boca vermelha. Eu adorava também dançar.

Fui feliz em minha juventude, vaidosa, cercada de amigos. Acho que eu tinha um grande coração.

segunda-feira, 9 de julho de 2007

Últimos dias

Da última vez que te vi eras mais filha do que mãe. Estavas deitada, impotente e frágil. Rapidamente olhei teus pés e lembrei deles ainda vigorosos, mergulhados em espumas brancas quando lavavas nossa cozinha.

Acho que o objetivo de nenhuma vida pode ser descoberto. Menos ainda da tua. Esse é um segredo de Deus, guardado dentro da Arca, junto com o maná e a vara de Arão.

Não lembro de ter perguntado se eras feliz. Acho que não. Penso que poucas vezes a felicidade pousou sobre tua cabeça mas jamais admitirias isso.

Mas não seria assim com todos nós?

Mas mais do que tudo, decifrar o sentido de teus últimos dias tem sido o maior dos desafios.
Há meses que esse quebra-cabeça jaz sobre a mesa das minhas reflexões, empoeirado. Olho confusa, levanto e não me animo a mexer em nenhuma peça. Não adianta.

Teus últimos dias não precisavam ter acontecido. Poderias ter morrido sem eles.
Houve alguma purificação? Um arrependimento final? Uma verdade revelada?
Poderias ter vivido sem eles...

Viraste criança, floco de neve, coisa leve que se perde. Foste restos de ti mesma, um suspiro dolorido.

Depois de teus últimos dias passei a me preparar para meus dias últimos. Sempre acho que vou me transformar em você. Olho no espelho e, parece-me, a metamorfose já começou.

Tenho pensado demais no final de todas as coisas e no prosseguir indiferente da humanidade.

Uma pausa

Esse lugar é um achado!
São 15:20 e estou ouvindo um piano celestial.
As músicas tocadas são do tempo de minha mãe.
Lá fora é dia mas aqui dentro é noite. Noite entrada em horas...

Pessoas antigas olham-me a partir das janelas de suas fotografias.
A música tocando fala tudo sobre como foi enquanto estavam vivas.
A música é veemente e apaixonada.
Veementemente apaixonada.

Nas ondas dessas músicas vejo um glamour esplêndido acenando daquela época.
Tudo ilusão, certamente. Mas é quase irresistível acreditar.
Essas impressões tem a ver com projeções das saudades que minha mãe sentia - projeções das emoções dela sobre minha mente.

Talvez nada fosse melhor.
Talvez fosse, mas eles morreram sem saber disso.

Dá vontade de chorar. Estou emotiva hoje, aqui, agora.
Queria visitar esse mundo passado com um vestido azul, leve e com sapatos bordados. Então eu conheceria aquele que poderia ter sido o grande amor da minha vida. Hoje ele certamente está morto.

Vou beber a isso. E chorar.